A nudez da cidade
Por RedaçãoA cidade (Curitiba) está nua ou seminua. Cheguei a esta conclusão esta manhã ao caminhar: poucos carros, pouco comércio aberto, enfim, pouco movimento. A cidade com pouca gente e pouco carro fica como que sem roupas, mostrando o que tem em suas entranhas.
Imagino que, quanto maior a cidade, pior devem ser suas entranhas. Se nem toda cidade tem entranhas desconhecidas ou mal cuidadas ou mesmo estarrecedoras, parte delas tem. Há regiões em Curitiba que as entranhas são estarrecedoras, é onde impera a ordem do crime. Alguns negam, mas existem. Existe até toque de recolher feito pelo crime organizado.
Se há muita gente na rua não se observa, ou se nota menos a existência de moradores de rua. Com poucas pessoas nas ruas, como hoje (24 de dezembro), chamam a atenção os poucos, que às vezes são muitos (caso de Curitiba) moradores de rua que estão caminhando, deitados debaixo de marquises, praças ou jardins.
Geralmente, as pessoas desviam deles, mas hoje, sem a poluição dos dias normais, é possível sentir seus odores de homens e mulheres que não, ou pouco, se banham.
Nem bem saí de casa, observo a magérrima figura de uma mulher que, com cabelo despenteado e descalça, caminha com relativa rapidez. Dou-lhe bom dia. Ela não responde.
Como pode ter um bom dia quem vive na rua? E é véspera de natal. Já na avenida Sete de Setembro, um homem, impossível pelo odor (não é preconceito) caminhar atrás dele com o vento a favor, dava bom dia a todos e desejava: “feliz natal, doutor”. Todos (os poucos) que ele encontrava chamava de doutor.
De repente, ele notou a ausência de seu cachorro e passou a chamá-lo. Alegre e radiante, o cachorro aparece, todo molhado. Tinha entrado no quintal do escritório de uma construtora e se banhado na fonte do jardim. Saiu se abanando e espirrando água para os lados. Se soubesse rir, deveria estar rindo.
Com a seminudez da cidade, é possível observar que são muitos os cachorros na rua hoje. É quase meio a meio os acompanhados de seus donos e donas, que insistem em conversar com os mesmos, e aqueles outros que, livres, “abandonados” e alegres, correm.
Quais deles são mais felizes: os que, “abandonados”, correm em liberdade, ou aqueles cujo dono ou dona não para de falar? Inclusive vi um cujo dono indicava a árvore em que ele deveria urinar. Oh, infelicidade, deve exclamar o cachorro.
Com a cidade seminua, também se observa uma grande quantidade de galhos de árvores e arbustos, e muitos móveis velhos que foram jogados das casas. Nas calçadas, temos que desviar destes galhos e sujeiras de jardim.
Também encontramos prateleiras, mesas, guarda roupas e todo e qualquer tipo de trecos esperando que algum catador de material reciclável ou que a limpeza pública leve. A maioria destes móveis está imprestável e corroído de cupim.
A nudez da cidade revela a mudança de odor. Com movimento dos dias agitados, ela cheira à combustão de álcool, diesel e gasolina. Com menor número de veículos nas ruas, o cheiro muda e fica mais presente o cheiro dos esgotos. Há ruas ou mesmo parques como o Barigui em que há trechos que fedem.
Não há outra palavra para isto: é fedor. Cito o Barigui porque na antevéspera do natal fui caminhar naquele parque e, junto comigo, foi o Edinho, meu vizinho, menino de dez anos.
Num dado momento, ele tapou o nariz e disse: “que fedô”.
Mas não foi só isso: com a diminuição do movimento de gente e de carros, melhor se vê e melhor se ouve os pássaros. Vale caminhar todos os dias, mas nos dias de pouco movimento, a nudez da cidade te dá mais tranquilidade.
Escrevo isso de Curitiba porque é aqui que vivo, mas será que Foz do Iguaçu é diferente? Tem ela entranhas com cheiros, cachorros, moradores de rua e pássaros?
Acredito que tenha, é só caminhar pela cidade com os olhos nus, num dia em que ela esteja nua e depois me conte se há entranhas e como elas são.
Feliz 2012.
Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR) e ex-presidente do Parlamento do Mercosul.
@DrRosinha
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18/05/2012