Comprar, comprar e comprar
Por Redação
DR. ROSINHA
Pelas origens, condições econômicas e valores de vida, nós, crianças no final da década de 1950 e início da de 1960, principalmente as do sitio, tínhamos poucos brinquedos. A maioria deles era construída por nossos pais ou, usando toda a criatividade infantil, por nós mesmos.
Faço essa observação ao notar que hoje, no dia de Natal e no Dia das Crianças, há um consumo acrítico.
Havia pouco diálogo entre pai e filho sobre as dificuldades econômicas e, mesmo assim, não sei a razão, havia uma certa “consciência” infantil de que não era possível ter muitas coisas.
Provavelmente, ajudava a formar essa “consciência” o fato de não termos acesso ao comércio e o próprio espírito e ideologia da época, de consumir pouco. Todas as famílias, com raras exceções, consumiam menos que hoje.
Corroborava com isto o não acesso à TV. Os reclames (era assim que se falava) dos produtos e mercadorias veiculados nas rádios eram modestos. Ao contrário de hoje, quando na TV se vê o objeto, na época era preciso imaginar o produto. E sabe como é, aquilo que o olho não vê, o bolso não sente.
Há várias razões para o consumismo acrítico. Muitos dos pais de hoje entendem que, na infância, tiveram privações, entre elas ter poucos brinquedos. Não querem o mesmo para o filho ou filha, assim nunca dizem “não”, e passam a comprar tudo o que imaginam importante para eles.
A chamada vida moderna tirou o campo de futebol (da várzea), a reunião em família, a praça e o jardim como lazer e divertimento das famílias e colocou os shoppings como o local do entretenimento. Passaram a ser, para muitos, o principal local de passeio. O capitalismo conseguiu fazer do passeio um mecanismo de consumo, para adultos e crianças.
A vida moderna também leva o pai e a mãe a se ausentar do dia a dia da criança. Essa ausência limita ou diminui a relação entre pais e filhos. Muitas vezes a atenção, afeto, carinho e amor que não recebem dos pais são substituídos por brinquedos. O amor é substituído pelo consumo.
A propaganda, antes, por várias razões, tinha acesso restrito. Hoje, é aberta para todas as classes sociais e faixas etárias. Este acesso acrítico faz da criança uma inconsciente consumidora. Ela passa a exigir o que vê e, muitas vezes, a exigência é feita através da chantagem: só atenderá a determinados pedidos se ganhar algo em troca: brinquedos ou outra coisa qualquer que viu na TV.
Nestas datas festivas, as avós, avôs, pais e mães não conversam entre si para dar um único ou poucos presentes. Ao contrário, competem entre si para ver quem vai dar o melhor e o mais caro presente à criança. Isto alimenta na criança a ideia de que o importante é ter.
Quando criança, ter muitos presentes. Quando adulto, por consequência, ter muitas coisas. Criam a ideologia de que o importante é consumir, ou seja, comprar, comprar e comprar.
Nenhuma criança nasce com a ideia de que o importante é ter muitos e diversos brinquedos. Essa ideia é introjetada nas crianças pelos adultos. Desejam eles a felicidade da criança, mas podem, com tal pratica, construir o inverso. Criam nas crianças a ideia de que tudo podem ter e que tudo que têm é pouco. Na ânsia de ter mais, acabam infelizes.
A mudança desta situação passa pela construção de homens e mulheres conscientes e críticos, e depende basicamente da família e da escola. Tanto um como o outro podem ajudar a combater esse consumismo, criando outros valores.
Mas elas estão preparadas para isso, quando os educadores e educadoras fazem parte da sociedade e vivem muitas vezes a mesma situação na própria família?
Não conheço o processo educacional e a didática, mas acredito que são poucas as escolas públicas e privadas preparadas para lidar com este tipo de “consumidor”.
Não tenho receitas, mas com as crianças menores o uso coletivo de brinquedos e as brincadeiras coletivas podem ajudar a construir a criança e o futuro adulto solidário. Com as crianças maiores, construir a ideia de que o importante é ser e não do ter.
Quando o pai e a mãe só dizem “sim”, a escola teria que dizer “não”. Consegue?
Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR) e ex-presidente do Parlamento do Mercosul.
@DrRosinha
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18/05/2012