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GAZETINHA PODE CHAMAR ASSIM QUE A GENTE GOSTA
Publicado: 04/01/2012 | 00:13

Sem-graceira

Por Redação

HELDER CALDEIRA

Os anos que começam no domingo são sempre muito estranhos. Passamos o último final de semana comendo, bebendo, estourando fogos de artifício e festejando o sepultamento do ano anterior e logo chega a primeira segunda-feira da nova data, nos obrigando a cair na real. Isso é de uma “sem-graceira” sem precedentes. A propósito, foi exatamente no primeiro dia de 2012 que aprendi, no precioso solo histórico de Diamantino, no interior mato-grossense, essa expressão sensacional: “sem-graceira”, para dizer tudo que é intolerável, insuportável, enfadonho e molesto.

“Sem-graceira” é ouvir diariamente que o Brasil está crescendo e se tornando uma das maiores economias do planeta, mas todo esse dinheiro não é capaz de promover qualquer forma de justiça social. Os cofres públicos estão cada dia mais recheados por uma das maiores cargas tributárias do mundo e não há sinais de que estamos caminhando no sentido de melhorar a prestação de serviços à população, ainda que constitucionalmente básicos, quais sejam: educação, saúde, saneamento básico, infraestrutura e bem-estar. Somos um país com conta bancária riquíssima e de população paupérrima.

“Sem-graceira” é perceber que mais um ano começa e nossa Justiça é cúmplice dos maiores bandidos nacionais, incapaz de puni-los ou carinhosamente recebendo-os como pares. Foi-se o tempo em que era possível crer que a toga e a magistratura deveriam ser sinônimos de notório saber jurídico, caráter ilibado e plena consciência constitucional. Nesse 2012 que começa, é lamentável constatar que qualquer um que tenha Q.I. (leia-se “Quem Indica”) pode se tornar um juiz, um desembargador e até um ministro do Supremo Tribunal Federal. O Poder que, ao longo das últimas décadas, acabou se mostrando mais próximo à realidade da sociedade, também se tornou um antro politiqueiro, leniente e recheado de excelentíssimos bandidos.

“Sem-graceira” é ter a certeza de que a corrupção, a ladroagem e os desvios de dinheiro público crescem de forma geométrica a cada ano que passa. O roubo nos governos deixou de ser uma exceção e passou a ser uma retumbante regra, independente da ideologia político-partidária estampada no frontispício do mandatário. As últimas três décadas são particularmente molestas ao Brasil: roubaram no governo Sarney; roubaram na curta gestão Collor; roubaram no tampão Itamar Franco; meteram a mão, sem qualquer pudor, no governo FHC; banalizaram a corrupção em grande escala na administração do popular Lula; e seguem roubando cada vez mais no governo Dilma Rousseff, que insiste tentar classificar a ladroagem como infantis “malfeitos”. Apenas o primeiro relatório de 2012 da Polícia Federal aponta que a corrupção triplicou nos últimos três anos. E pior: nenhum dos “malfeitores” foi punido ou obrigado a devolver o que foi roubado dos cofres públicos.

“Sem-graceira” é perceber que todas essas mazelas públicas são o mais belo disfarce ideológico para que a bandidagem política siga sua trajetória ascendente de roubos despudorados. E “sem-graceiríssimo” é ter a certeza de que nada irá mudar, de fato, no Brasil se essa insuportável cultura política, tacanha e perversa, não sofrer mudanças radicais de percurso. Não há democracia real que resista à sacanagem dos nossos engravatados. Nem com o famoso “jeitinho” brasileiro. É uma “sem-graceira” essa nossa tupiniquim democracia relativizada. Então, se há um desejo imperativo para esse início de 2012 é que seja um ano onde possamos encontrar as “graças”. Porque já temos “desgraças” demais!

HELDER CALDEIRA*
Escritor, Jornalista Político, Palestrante e Conferencista
www.heldercaldeira.com.br – helder@heldercaldeira.com.br

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