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Publicado: 10/01/2012 | 00:04

Infinitamente longo

Por Redação

DR. ROSINHA

Ao celebrar seus 80 anos, em setembro de 2010, a sueca Anita Ekberg, atriz e ícone do cinema, admitiu em uma entrevista que se sentia “um pouco sozinha”. Disse, na ocasião, ao jornal italiano “Corriere della Sera”, que “os dias são infinitamente longos”.

Aqueles jovens que não têm no cinema nenhuma referência histórica não conheceram e nem conhecem a bela e formosa Ekberg. Ela marcou história no cinema.

No filme “A Doce Vida” (dirigido por Fellini em 1960), atuou com Marcello Mastroianni. Agora, envelhecida e esquecida, vive num asilo perto de Roma.

Termino de ler a notícia acima e me ponho a pensar nas ações do tempo. Não sei se a palavra correta é dizer que ele é ingrato. Ao mesmo tempo em que  nos aperfeiçoa, nos destrói.

Aperfeiçoa o pensamento ao aumentar o discernimento (experiência) intelectual, e fisicamente nos destrói. Enquanto o pensamento se torna mais ágil, aumentando a capacidade de decisão, possibilitando mais acertos que erros, o corpo vai te limitando.

O corpo não obedece às ordens da mente. Pensa em sair correndo, porém o corpo não obedece: dá “meia dúzia” de passos e o corpo pede para parar e sentar. Vê uma fruta numa árvore e pensa em colhê-la, porém com que físico subir na mangueira?

No final do ano que terminou, ouvi mais de uma pessoa falar frases como essas: “este ano o tempo correu”, “nem começou o ano parece que terminou”, “o ano que passou foi vapt-vupt”, “foi tão rápido o tempo que não consegui fazer o que queria”, e assim por diante.

Ouvi isso de pessoas com mais de 40 anos de idade. Dos jovens não ouvi nenhuma menção de que o tempo passou rápido. Assim notamos que o tempo é o mesmo, porém a velocidade com que passa para uns não é a mesma com que passa para outros.

Se estiver solitariamente numa instituição asilar, o tempo é “infinitamente longo”.

A velocidade com que ele passa depende de onde esteja. As horas passam na mesma cadência enquanto o tempo varia de acordo com a pressa e lugar. Uma hora pode se tornar um dia. Um dia, alguns segundos.

Há também o tempo de fatos não desejados. São os tempos de dores e estes momentos “são infinitos”, mesmo que durem algumas horas ou menos.

Quanto mais velho, mais corre o tempo. Quando novo, o tempo é mais lento e, se criança, o tempo é infinito. É o infinito tempo de brincar, comer, dormir, acordar e brincar novamente.

Para muitas crianças, entra o maltrato. Estas, quando ganham a consciência, não veem o tempo (momento) de crescer e ir embora de casa.

O tempo é também infinitamente longo para muitos idosos e, para estes, não mais adianta sair de casa. Não dá para fugir do tempo. Para qualquer lugar que vá, o final é o mesmo: é o tempo de espera e este será sempre infinitamente longo.

Na doença, o tempo é lento e, se tiver numa Unidade de Terapia Intensiva (UTI), ele se torna “infinitamente longo”.

Na UTI, já estive como médico, acompanhante e paciente. Nos três casos, o tempo não é o mesmo. Como médico, o tempo passa mais rápido. Já nas duas outras condições, o tempo se alonga ao “infinito”.

Na última vez em que estive na UTI (há menos de dois meses) como paciente (já estive quatro vezes nos últimos cinco anos), confirmei as impressões anteriores: o tempo se mostra terrível, difícil e lento. Se em consciência, não tem o que fazer.

Todas as vezes em que se está na UTI, procura-se ocupar o tempo com qualquer e mínima coisa. Nesta última vez, fiquei de frente para o relógio pendurado na parede.

Você imagina tudo, até o relógio derretendo, como no quadro de Salvador Dalí. Fiquei olhando para o relógio na parede. Estavam lá os três ponteiros: o da hora, o dos minutos e o dos segundos.

Não tendo o que fazer, comecei a contar quantos ‘pulinhos’ dava o ponteiro dos segundos em um minuto. Contei uma, duas, três… oito vezes. Sempre deu 60 ‘pulinhos’.

Conclui que o relógio estava bem regulado, pois dava um ‘pulinho’ por segundo. Depois arrumei outra coisa para me distrair. Coisas banais, como tentar, de dentro da UTI, ouvir um pássaro cantar. Não consegui. Para quem está dentro de uma UTI, até os pássaros fazem silêncio.

Estou em férias: vou ver “A Doce Vida”, de Fellini. Relembrar a diva Anita Ekberg. Relembrar um tempo passado.

Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR) e ex-presidente do Parlamento do Mercosul.
@DrRosinha

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