Sabor do gosto puro
Por Redação
DR. ROSINHA
“En tiempos de globalización. En tiempos de crisis alimentaria. En tiempos sin tradición. Quebró Mcdonald’s”. É assim que começa o filme-documentário “Por que quebró Mcdonalds – Un recorrido por la comida boliviana”.
Li a boa noticia que o Mcdonald’s quebrou na Bolívia no final do ano passado, mais especificamente no dia 30 de dezembro. Quando digo boa noticia não é no sentido de que a rede vai deixar de ganhar um pouco mais de dinheiro, ou que o modelo de fast-food esteja em descenso, ou ainda que o capitalismo sai perdendo, mas sim no sentido do que representa para a cultura.
Os bolivianos são um dos poucos povos no mundo que, consciente ou inconscientemente, defende sua cultura (língua, música, costumes, alimentação, etc.). É a vitória da cultura local que quebra o Mcdonald’s.
O documentário inicia com imagens do altiplano andino e, em seguida, de La Paz, tendo ao fundo a música tradicional (zampoña, flauta, charrango e batidas de seus tambores). Parte do documentário mostra também a dança e a festa tradicional.
No apanhado geral das ruas, são mostradas muitas tendas e barracas vendendo comida pronta para ser consumida. Mostra também tendas e barracas, bem como sobre panos estendidos nas ruas e calçadas, verduras, frutas e legumes ao natural, também para serem vendidos.
Entre os muitos produtos, a batata tem uma forte presença. A mesma presença que o Mcdonald’s procurou dar na sua propaganda (pelo menos é o que mostra o documentário), porém a preparação não é a mesma. O Mcdonald’s a prepara com o seu método mundial, e o povo boliviano consome ao seu modo e ao seu jeito, fruto de uma cultura de milênios.
A batata (milhares de espécies) é originária do altiplano andino. Restos de batatas encontradas em cavernas na região costeira do Peru foram reconhecidos com sendo de 8 mil anos antes de Cristo, e que no mínimo há 7 mil anos a.C. já era consumida como alimentação humana.
Pois bem, esta cultura de produção, armazenamento e consumo que os povos bolivianos preservam há milênios é uma das razões da negativa em consumir as batatas do mais “famoso e favorito” restaurante do mundo. O Mcdonald’s foi derrotado por não compreender a língua, música, dança e a cultura alimentar. É esta resistência cultural que me deixou feliz.
No documentário, claro que é impossível perceber, mas para aqueles que lá estiveram (estive mais de meia dúzia de vezes) sabem que muitas das ruas de La Paz cheiram à comida. São inúmeras as barracas ou feiras que vendem comidas preparadas nas ruas.
Na hora do almoço, é grande a presença de pessoas se alimentando nestes locais. É maior o número de pessoas comendo nas ruas do que muitos, senão todos, restaurantes da cidade. A comida da rua tem um cheiro (bom) que desperta o apetite.
A cozinha boliviana é pouco conhecida de quem não vive lá, mas “…es una cocina de sabores intensos, de fuertes contrastes y de vibrante energia que brota del corazón de nuestras montañas”, define Rita Del Solar no documentário.
Aqueles que frequentam o Mcdonald’s no mundo sabem que ele se apropria da cultura alimentar da região, e assim fez na Bolívia. Mesmo tendo se apropriado de parte da culinária boliviana e absorvido no seu cardápio musical os melhores conjuntos locais (ao vivo), não conseguiu conquistar o coração, a mente e o estômago do boliviano. Não conseguiu isto nem em Santa Cruz de la Sierra, a mais branca das cidades.
O Mcdonald’s fechou todos os oito restaurantes nas três cidades mais importantes do país: Cochabamba, La Paz e Santa Cruz de la Sierra.
A Bolívia será o primeiro país latino-americano a ficar sem o Mcdonald’s, e o primeiro país do mundo onde a empresa fecha por levar prejuízo. Fechou por não conhecer e não respeitar a cultura de um povo.
O “restaurante mais famoso do mundo”, o “restaurante favorito de todas as famílias do mundo”, como se auto define o Mcdonald’s na sua propaganda, quebrou na Bolívia.
Quebrou por que não soube interpretar o país onde “a terra concentra o sabor do gosto puro”, conforme trecho da trilha sonora do documentário.
Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR) e ex-presidente do Parlamento do Mercosul.
@DrRosinha
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18/05/2012