Diálogos
Por RedaçãoDR. ROSINHA
No inicio deste mês, mais precisamente no dia em que entrei nas minhas merecidas (alguns podem achar imerecidas) férias, estava na agência BB Aeroporto, quando um cidadão, funcionário do aeroporto, entrou na agência. Estava eu lendo um romance e com uma lapiseira na mão para fazer anotações.
Por mais de uma vez, li que riscar livros os estraga. É verdade que os deixa feios, cheios de riscos e com uma vida mais curta. Mas não consigo ler, seja o que for, sem riscar e fazer anotações às margens do texto. E justamente por estar com o livro e a lapiseira na mão é que pude anotar este curto diálogo.
O homem entra e cumprimenta a todos, que naquele momento eram quase dez pessoas, pois havia um único caixa funcionando, o que causava uma longa fila.
Aliás, agora nos dão senha, cadeiras para sentar e uma TV sempre ligada em algum péssimo canal e consequentemente em um péssimo programa. Os bancos cada vez economizam mais em recursos humanos: cada máquina (caixa) eletrônica que coloca tira dois funcionários.
Hoje, o cliente faz todo o trabalho (deposita e tira dinheiro, faz pagamentos e transferências, imprime cheques, vê saldo e extrato, etc.) que era para ser feito por um funcionário. O cliente faz tudo e paga um número cada vez maior de taxas, e cada vez mais altas. É um autoatendimento: ele paga para se autoatender.
O homem entra e diz: “boa tarde”.
— Boa tarde — respondemos todos, inclusive a vigilante (era uma mulher que fazia a segurança da agência), que já emenda uma pergunta: — Esta de férias?
— Sim, só mais esta semana. Graças a Deus. Não vejo a hora de voltar a trabalhar. Em casa eu e a minha mulher só fazemos brigar — responde o homem.
Pensei e anotei: estou no aeroporto para embarcar, com a minha mulher, para as minhas férias. São duas semanas, que para mim é pouco tempo. Gostaria de um tempo maior. Por mais tempo que tenha em casa ou de férias, não brigo com a minha mulher. Se há briga entre o casal, principalmente quando esta de férias (período de pouco estresse), é porque tá na hora de pensar o relacionamento e avaliar se vale a pena continuar juntos. Mas esta é outra história.
Numa das noites, já de férias, estou sentado na varanda da Pousada, ouvindo o mar em frente, lendo e anotando, quando sou interrompido pela Alice. Fui saber seu nome logo depois. Ela chegou e imediatamente perguntou meu nome e logo em seguida a idade. Pensei: digo o nome ou o apelido?
Resolvi, fazendo antes a observação que o nome não é bonito, falar o nome, “Florisvaldo”. Ela, com toda inocência de criança, como são todas as crianças, não fez nenhum comentário e em seguida emendou: “quantos anos?”
Se antes de falar o meu nome para algum adulto digo que ele é feio, muitas vezes ouço: “é diferente”, mas vem acompanhado de algum estranhamento. A criança não tem a concepção do feio ou bonito. Esta concepção é colocada pelo adulto durante a formação da criança, por isso a Alice não fez nenhum comentário a respeito.
Conversamos uma conversa de criança: de onde é, o que faz, em que série (escolar) está, se gosta de estudar, se gosta de ler. Foi um diálogo de cerca de uma hora, portanto longo se observar a idade dos interlocutores: eu, com 61 anos, e ela, com 10.
Terminada a conversa, me deu tchau e virou-se para sair. Deu três passinhos e voltou com a mãozinha estendida e pediu “bença”. Peguei sua mãozinha e vi no seu olhar que pedia um beijo no rosto. Segurando sua mão, beijei-a na testa e disse-lhe: “Deus te abençoe e tenha uma boa noite”.
Alice foi dormir e nos tornamos amigos nestes poucos dias de férias.
Nos dois diálogos fui interrompido da minha leitura e cada um retrata uma realidade. O primeiro é o retrato da insatisfação pessoal e da vida a dois. O segundo, o da alegria das férias. Por si só este segundo diálogo valeu as férias.
Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR) e ex-presidente do Parlamento do Mercosul.
@DrRosinha
últimas notícias
18/05/2012