A LEI DO SILÊNCIO
Por RedaçãoPor: Ildo Carbonera
Quando era jovem, tinha alguns medos. Hoje, cinquentão, professor universitário e doutor em Letras, enfrento medos diferentes, muito mais ameaçadores. Nos tempos da faculdade, víamos os inimigos, os propagandistas da censura, do controle, da ameaça. Tínhamos medo de levar alguma cacetada nas nádegas, nas costas, na cara. Hoje, é difícil saber se a mensagem é de ignorância, inveja ou ódio.
Por que esta introdução? Porque, hoje, os inimigos não são vistos pelas ruas, praças, estádios; não usam farda, algemas, cassetetes, fuzis…
Você sabia que eu já imaginei centenas de crônicas, todas elas censuradas? Eu sei! Não há censura no País! Claro, é só olhar a programação da televisão brasileira aberta, as novelas, os programas de auditório, as reportagens dos telejornais… Vivemos numa Democracia Plena! Eu sei!
Há alguma ironia nessas palavras? Claro, sem ela o que seria de mim, aqui neste espaço? Mas a presença da ironia não significa a presença natural da censura. A Ironia presente nas obras de Machado de Assis, Graciliano Ramos e Carlos Drummond de Andrade não é uma ironia à sombra da censura; é uma ironia criada pela capacidade artística do escritor. Xô, dogmatismo! Xô, juízos de valor! Um brinde à auto-censura!
Olha, só nesta semana que passou, eu tive uma dezena de motivos para preencher este “Espaço G”. Eu pensei numa crônica a respeito de um e-mail que recebi de uma mulher. Ah, você, de novo com esse vício, mania ou neura? Quando é que um homem teve a plena liberdade de falar de seus sentimentos a respeito de uma mulher, casada?
Você assiste às entrevistas na televisão, rádios, jornais e revistas locais? Eu tento ver, mas não consigo aguentar até o fim. É que algumas coisas ainda me afligem demais. Não permito mais que minha lucidez se transforme em indignação, em stress, em vontade de…
Percebe o que é a censura? Nesses três pontinhos eu tinha a intenção de colocar um verbo que expressa ação; ação violenta. Não tive coragem.
Antigamente, já como professor universitário, li, estudei e levei para a sala de aula alguns textos que tratavam da violência. Não essa violência que a gente vê todo dia na imprensa, ouve nas conversas. Falo dessa violência “interna”, presente nos corações, nas mentes, nas almas; a ”violência psicológica”, subliminar, simbólica. Não é uma violência que deixa marcas, hematomas, cortes, feridas e cicatrizes na parte exterior do corpo.
Eu estou com medo, agora. Medo de falar, escrever, questionar, debater, revelar, denunciar… de fazer algumas perguntinhas, de criticar aquele figurão badalado, de… Vivo o Sócrates, quando a Globo voltaria à Democracia corinthiana?
- Você me entende?
Ildo Carbonera, mero cronista
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18/05/2012