Educação Torta: enquanto alunos são esquecidos, professores são recompensados
Por RedaçãoHELDER CALDEIRA
Em 2008, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (hoje presidente “licenciado”!) anunciou, entusiasmado e festivo, a criação do programa “Um Computador por Aluno” (UCA), parte de um gigantesco projeto de inclusão digital do Governo Federal. Em dezembro do mesmo ano foi realizada uma licitação que consumiu R$ 82,5 milhões do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para a compra de 150 mil laptops que seriam distribuídos em 300 escolas públicas pré-selecionadas pelo Ministério da Educação (MEC). O UCA dependia também do interesse de investimentos e contrapartidas de governos estaduais e prefeituras e em 2010 foram colocados 600 mil novos laptops à disposição de governadores e prefeitos, que só compraram metade das unidades. Estima-se que foram gastos cerca de R$ 250 milhões.
Em 2011, a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE), que está sob a batuta do peemedebista Moreira Franco, ex-governador fluminense, encomendou à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pela bagatela de R$ 1,7 milhão, um estudo sobre o impacto da distribuição de 10 mil desses laptops a alunos de escolas públicas em 5 pequenos municípios de diferentes estados brasileiros. O resultado foi assustador. Foi registrado um alto índice de computadores quebrados e avariados e a maior parte dos equipamentos continua encaixotado por pura falta de infraestrutura nas escolas e pela ausência de qualificação e capacitação dos professores. E isso é só a “parte boa” (se é que podemos chamar assim!) do relatório final da UFRJ, com mais de 200 páginas, assinado pela professora Lena Lavinas, ex-secretária municipal de Monitoramento e Gestão da Prefeitura de Nova Iguaçu/RJ, na administração do atual senador petista e ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Lindbergh Farias.
Um dos argumentos utilizados pelas escolas para não distribuir os laptops aos alunos (citado no relatório final do estudo) é o fato de que os professores, pela carência de qualificação,“sentem a inovação como ameaça”. Para resumir a situação, classificada como “caótica”, o relatório diz: “Muitos professores se sentiram humilhados e desmotivados. (…) O desenho do projeto subestimou as dificuldades de apropriação da tecnologia pelos professores do ensino fundamental e médio em comunidades relativamente carentes, o que levou a um subaproveitamento do UCA em sala de aula”. Em suma, os mestres, que não sabiam utilizar um laptop simplista, ficaram com medo dos alunos, melhor adaptados à era digital e decidiram manter os equipamentos dentro das caixas, abandonados em empoeirados depósitos. “Os alunos, com a posse e o domínio dos equipamentos, (…) parecem revestidos de um poder, que somado à pouca capacitação dos professores e falta de infraestrutura das escolas, confunde o processo ensino-aprendizagem e assombra e inibe a ação e a autoridade dos professores e diretores”, aponta o relatório da UFRJ. Isso é uma barbaridade!
Imediatamente, a presidente (“interina”) Dilma Rousseff convocou uma “reunião reservada” com o novo ministro da Educação, Aloizio Mercadante (PT/SP), e a ordem foi travar o UCA. Ao invés de promover o investimento maciço na exigência de capacitação dos professores no universo tecnológico, que reina absoluto neste início de século, a decisão foi punir os alunos com a paralização do projeto. Para remendar esse soneto ruim e sustentar os níveis esquizofrênicos de aprovação popular, no dia seguinte o governo, na figura do próprio ministro Mercadante, anunciou que o MEC irá comprar 600 mil tablets para distribuir a todos os professores do ensino médio da rede pública no segundo semestre de 2012. A brincadeira politiqueira e de mau gosto irá custar, inicialmente, cerca de R$ 180 milhões aos cofres públicos. Num futuro (que ninguém sabe quando é isso!), o “presentinho” será estendido aos mestres do ensino fundamental.
Ora, convenhamos, será que um tablet de R$ 300 irá fazer um professor melhor? O que fará com esse equipamento um profissional que, por ausência de qualificação e falta de proximidade com o universo digital, teme seus alunos mais próximos à tecnologia? Se o relatório encomendado pela SAE aponta que os professores não sabiam ou não compreendiam o funcionamento de um simples laptop, saberão eles utilizar um tablet? Vamos ser honestos: ainda há escolas sem cadeiras, sem mesas, sem merenda e sem transporte escolar. No interior do Brasil, inviáveis classes multisseriadas ainda se aglomeram no chão de taperas, sem paredes e telhados, e que são chamadas de colégios. Quiçá acesso à internet. O que o ministro Aloizio Mercadante anunciou é uma afronta à inteligência do cidadão contribuinte, pagador de impostos e supremo financiador das insanidades governamentais. Isso chega a ser pior que a ladroagem corrupta. Isso é a legitimação da má reputação e da falta de depuração do magistério e a chancela para que gerações sejam condenadas à morte social pela ignorância absoluta.
Agora vamos raciocinar um pouquinho: grosso modo, para que possamos evoluir enquanto sociedade, devemos garantir e fomentar uma nova geração melhor que a nossa. Essa é a dinâmica do processo civilizatório. Mas em solo brasileiro vigora o inverso, uma espécie de Educação torta. Desde o Brasil Colônia, a máxima é: quanto mais burra e ignorante for a população, mais fácil será transformá-la em massa de manobra política. Que ninguém se engane: assim é até hoje, 36 presidentes da República depois. É como bem questionou o professor-doutor Cláudio de Moura Castro, em sua coluna na revista Veja de 08 de fevereiro de 2012: “Que direito tem o estado de permitir que a educação seja assassinada por alguns professores reconhecidamente inadequados?” Sem sombra de dúvidas, o que o Ministério da Educação está fazendo é um crime de lesa-pátria. Enquanto os alunos são esquecidos e relegados à mazela de um sistema educacional tétrico, alguns professores desqualificados e anacronicamente soterrados por argumentos incivilizados e inacreditáveis em pleno século XXI serão recompensados. Viva o socialismo tupiniquim!
HELDER CALDEIRA
Escritor, Jornalista Político, Palestrante e Conferencista
www.heldercaldeira.com.br – helder@heldercaldeira.com.br
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18/05/2012