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Publicado: 11/02/2012 | 01:13

Uma Bela Toalha Triste

Por Redação

Por: Gabriela Keller

Heitor levantou-se vagarosamente da poltrona e, de olhos fechados na tentativa de sentir-se em um lugar diferente, tateou os ornamentos da porta, que pareciam sempre outros sob seus dedos. Podia sentir o cheiro adocicado esgueirando-se pela fresta e se instalando em sua cabeça, que – sabia – logo começaria a latejar. Ao abrir a porta, pôde ver Sônia abraçada a um pequeno livro de capa escura. O perfume enjoativo combinava com a pele muito branca e as pálpebras alaranjadas, que ela movia freneticamente em busca das palavras certas para iniciar uma conversa. Ele afastou-se da entrada para que Sônia entrasse com sua longa e frouxa saia florida, os cabelos desorientados depois de desfeitas as tranças. Ela derrubou o olhar sobre a mesa da sala de estar e ali o deixou. Heitor quis explicar.
- Temos uma nova toalha de mesa.

Sônia apertou ainda mais o livro contra o peito e arrastou os pés até o quarto vazio no final do corredor. A porta estava sempre trancada, mas ela trazia a chave na pequena e frágil bolsa de tecido. Os móveis do cômodo haviam sido retirados, sobrando apenas a cama e, ao lado, uma cadeira em pedaços. O quarto estava empoeirado e aparentemente guardava as últimas ações de quem ali vivia, com alguns brinquedos e papéis espalhados pelo chão e restos de comida pelos cantos. Nem por isso pensava-se em limpá-lo. A minúscula janela dava para um canto escuro do jardim que abrigava entulho e objetos velhos que não serviam mais.
O cheiro do quarto pesava nas narinas de Sônia, que abandonou a bolsinha no chão, próximo a um caderno com rabiscos que a poeira já não permitia distinguir. Heitor esperava uma resposta.

Você não vai dizer o que achou?

Ela é triste.

Heitor, sem responder, fingiu procurar algo nos bolsos do casaco. Ela percebeu a mágoa:

Bonita, mas triste.

 Uma toalha não pode ser bonita e triste ao mesmo tempo.

Sônia abriu o livro que levava consigo, cruzou os dois pés e passou a movê-los em uma dança só sua. Diante do silêncio dela, ele insistiu.

 Não pode.

 Ela é.

Heitor permaneceu parado na porta. Sônia deitou seus olhos sobre uma página qualquer do livro e ele sabia que ela não começaria enquanto não se retirasse e fechasse a porta. E foi o que fez. De olhos fechados, tateou os ornamentos da porta que um dia guardou atrás de si um sorriso de dentes pequenos e muito brancos. Ainda no corredor, andando em direção à cozinha para fazer o café de sempre, pôde ouvir a voz quase triste de Sônia preenchendo com uma bela história o quarto de paredes descascadas.

*Gabriela Keller é fotógrafa e escritora. Faz parte da Cia Experiencial O Teatro do Excluído. Siga ela no twitter: @gabises.

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