FAZ-DE-CONTA (III)
Por RedaçãoPor: Ildo Carbonera
Nesses últimos tempos, morreram Brizola, Jefferson Peres, Ruth Cardoso, Paulo Renato, Sócrates e tantos outros. Diariamente, pelos mais diversas motivos, a morte assombra os lares brasileiros. Além do egoísmo, disfarçado de individualismo, do stress, da parada gay, do cartão cidadão, a Modernidade estabeleceu novas formas de morrer. Até alguns velhinhos aderiram ao crack como forma de antecipar o “momento derradeiro”.
Nas duas primeiras linhas, temos cinco brasileiros que já morreram. Quantas dessas mortes foram motivo para festas, comemorações e brindes? Nenhuma? Ah, espera aí!
Em nome de uma censura muito bem disfarçada, surge uma nova pergunta, que também não quer calar: Ao invés desses cinco brasileiros, quem deveria ter morrido? Eu tenho aqui, bem escondidinha, uma lista de vários brasileiros que já deviam ter morrido, para o bem do País. Não mesmo! “O que aqui se faz, aqui se paga” não resolve o problema.
Tenho outras perguntas que não querem calar. Não havia nenhum brasileiro, especialista (que estudou, que se preparou para isso) para ocupar o cargo destinado ao Ronaldo Fenômeno? Nesses últimos vinte anos (vamos dar 80 anos de vida útil a ele), o Brasil não formou mais nenhum “grande arquiteto”?
Você sabe o que é “censura simbólica”, “violência simbólica”, “Ditadura simbólica”? Por que as pessoas do Bem, legais, extremamente inteligentes, criativas e competentes vivem retiradas, afastadas, enclausuradas, distantes das badalações, transações e tramitações?
Não que eu achasse grandes coisas essas cinco pessoas “famosas” e também “importantes” que morreram nesses últimos tempos. Pelo contrário, nem estou falando disso. Falo de uma suspeita, misturada à dor.
- O Brizola morreu? Vamos brindar!
- Se o PSDB ganhar as próximas eleições, quem será o Ministro da Educação?
Muitas vezes, a linguagem simbólica surge graças à auto-censura, ao medo. O mesmo acontece com o silêncio. Nem sempre, quem cala não sente…
“Tratava-se de um homem muito famoso, igualmente um grande imbecil”. Se não me falha a memória, isso foi observado por um tal de Abelardo, há muito tempo. (Eu aprendi na escola, dos velhos tempos, que, quando a gente usa o “há”, indicando tempo passado, não precisa usar o “atrás”, para evitar a redundância). Mas o Raul Seixas, numa de suas músicas, canta: “Eu nasci há dez mil anos atrás”.
Eu sei! Sei também, que o Simon e Garfunkel cantam “People talking without speaking”. A sílaba tônica de “speaking” é “pea”, mas eles cantam como se fosse “king”. Mas, aqui, é questão de ritmo! Tá bom…
Você percebeu que na terceira tentativa, nesse “faz-de-conta”, não consegui dizer exatamente o que queria dizer?
Ildo Carbonera, professor de Letras.
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18/05/2012