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Publicado: 22/02/2012 | 00:06

Minha fantasia

Por Redação

DR. ROSINHA

Tatuagem. Parece bobagem escrever sobre este tema. Bobagem? Sendo ou não, vamos adiante. Dizem que a primeira vez a gente nunca esquece. Esqueci. Esqueci quando foi a primeira vez em que vi uma tatuagem. Não lembro sequer a idade que tinha quando, pela primeira vez, vi uma tatuagem.

Por muito tempo, e confesso que ainda não sei se estou bem curado, achei as tatuagens uma coisa suja sobre a pele. Dependendo do tamanho, acho, até hoje, algumas delas sujas. Sujas com mais de um sentido, inclusive o de limpeza, para ser sincero.

Às vezes são sujas no sentido de arte. Tatuagens enormes, rebuscadas, de cores escuras e sem vivacidade. Quando no corpo todo, é poluição mesmo. Certo que há tatuagens pequenas, simpáticas até. Exemplo: uma pequena flor com suas cores vivas; uma pequena borboleta; um pequeno beija-flor beijando a planta.

O tatuado pede para fazer sobre seu corpo o desenho que para si tem algum sentido ou símbolo. Também quer transmitir para o outros alguma mensagem.

Há também a sujeira da localização. Grandes e localizadas em peitos, coxas ou pernas peludas: são irreconhecíveis, sujas, no sentido artístico. Algumas são carregadas de cores ou escuras ou borradas pelo excesso de detalhes.

Há também as “limpas”, geralmente localizadas sobre belas escapulas ou dorsos. Há também aquelas localizadas em locais eróticos, que poucas pessoas, além das donas e dos donos, e quem deixarem, podem vê-las.

Na década de 1980, conheci um ex-tatuado. Apaixonado, mandou tatuar o nome da paixão no antebraço direito. Um dia, esta paixão foi substituída por outra e, como sempre, as paixões arrebatadoras são exigentes, exigiu que apagasse a tatuagem.

Nosso ex-tatuado, sem recursos para pagar uma plástica, dilacerou a pele com o que tinha (faca, gilete ou navalha…) ou podia. Ao invés de ser apagada, a tatuagem foi borrada, ficou no local uma cicatriz.

Dizia-me ele que a cicatriz era o sinal do amor. Era a cicatriz que restou do antigo amor. Casou-se com a nova paixão. Casou-se, mas não tatuou o nome da nova amada sobre o outro antebraço. Informou-me que não queria correr o risco de uma nova cicatriz.

Recentemente caminhávamos pela praia quando minha mulher me chamou a atenção. Disse-me: “veja, que pena, aquele moço tem vitiligo”. Havia sobre uma das pernas do rapaz algumas manchas brancas que, a distância, pareciam vitiligo. Ao nos aproximar chamei a atenção: “é uma tatuagem”.

Como o rapaz é negro, para dar contraste à sua tatuagem, teve de valorizar a tinta branca. Digo tinta porque não sei o que é usado para dar cor à tatuagem. Pela cor de sua pele, outras cores não se destacavam, então a base de tudo era o branco.

A tatuagem é anterior à época de Cristo neste mundo, e parece que sua origem é relacionada às religiões antigas. Claro que os cristãos classificam como religiões pagãs às anteriores ao cristianismo.

Religiões anteriores ao nascimento de Cristo foram consideradas coisa do diabo pelos cristãos, tanto que na Idade Média (787) as tatuagens foram proibidas por um dos Papas. Essa é a informação que tenho. Há que se conferir.

Hoje, ter tatuagem é moda, muitos e muitas gostam de tê-la e outros tantos, de apreciá-las.

No carnaval, muitas mulheres saem nos blocos e escolas de samba vestindo meras “tatuagens”. Coloco entre aspas porque algumas aparecem nas diversas passarelas pelo Brasil afora trajando apenas uma “tatuagem”, uma pintura sobre o corpo. A nudez é coberta pela tinta e a tinta é lavada pelas imaginações.

Imaginam que aquela tinta possa sair pelo suor, chuva e cerveja. Imaginam a nudez que querem. Nudez: para alguns, coisa do diabo.

Os cultuadores afirmam que a tatuagem é uma obra de arte viva enquanto há vida. Concordo e acrescento: é também uma obra dinâmica, se modifica com a velhice, conforme a pele vai envelhecendo.

O que fazer quando as tatuagens se tornarem pelancas penduradas em bíceps e bundas envelhecidas? É isto que imagino quando vejo jovens sarados(as) cheios de tatuagens. A vantagem é que pelo menos terão pelancas coloridas. Artisticamente coloridas.

Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR) e ex-presidente do Parlamento do Mercosul.
@DrRosinha

 

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